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rants coléricos e informações imprecisas

um blog escrito por Marco Lazzarotto : international man of mistery / ex-heavy drinker / West Wing cult leader

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Jan 18

brado retumbante - episódio 1

E daí a Rede Globo faz uma mini-série que tem como tema principal os bastidores da política presidencial do Brasil. Não prestei atenção em quem escreveu (mas pesquisarei) e nem em quem dirigiu (mas pesquisarei), mas obviamente já tenho algumas opiniões sobre. 

Ontem @rubensborges me avisou da série - eu não tinha visto nenhum promo nem nada, mas ok, culpa minha, EU sou desligado - e ainda bem que ele me avisou porque o que passou pela cabeça (por ambas as cabeças) era de que tinha The West Wing feelings¹. AKA preciso assistir e era isso.

Obviamente há um limitador de qualidade entre TV americana e TV brasileira, mesmo levando em conta a qualidade da Rede Globo em produções mais recentes de entretenimento, especialmente nos quesitos edição (onde eu acho ela - Globo - campeã), direção de arte, figurino, fotografia e trilha sonora. Não imaginava encontrar um TWW, MAS também não esperava encontrar uma novela de 8 capítulos. Existe um cold open, com diálogos levemente nublados, que mais escurecem que esclarecem o tele-espectador, a la TWW, e ainda tivemos um vislumbre - será uma homenagem? - do famoso estilo de dirigir “walk-n-talk”²; mas em todo o episódio me pareceu que faltou a profundidade do roteiro que - para mim - deveria haver numa série sobre a presidência e sobre o governo federal. Há uma carência de gravitas enorme, fazendo com que o piloto pareça uma série de situação, com alguns sketches (totalmente baseados em força de personagens caricatos) e a esquizofrenia de um produto que não sabe se é entretenimento sério (estou evitando utilizar a palavra drama aqui), se é sátira, se é comédia ou se é apenas um exercício de espelho de malemolência do estilo brasileiro. Não de governar, mas de atuar. 

Enfim, o episódio piloto- “Presidente Acidental” - tem como principal elemento de roteiro a ascenção de um deputado (recém alçado à condição de presidente da câmara dos deputados) para a posição de Presidente da República após tanto o Presidente quanto o Vice-Presidente morrem (juntos) em um desastre de helicóptero. Há uma questão fundamental aí, na acidentalidade desse presidente, e há também um leve aceno em direção ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que se auto-declarou o Presidente Acidental do Brasil em sua autobiografia?, mas enfim essa acidentalidade do heroi - um heroi mulherengo, espantosamente parecido com Aécio Neves, que tem um misto de Quixote e Sancho Pança ao mesmo tempo - é que dá o tom da série: nada é para valer, é tudo uma loteria, não estamos planejando nada. 

Eu gostaria que estivessem planejando o roteiro. Pelo menos os diálogos.

E aquele final bem mazomenos? O que foi aquilo? Se você quer pegar a audiência pelas bolas você faz um final sensacional, com algo que deixe o espectador ansiando pelo próprio episódio. Tinha tanta coisa que podia ser feita: cuidar melhor dos personagens; fazer com que a cruzada do anti-heroi seja mais dura, menos prazerosa; terminar o episódio fazendo com o que o filho deles fosse um agente da polícia federal investigando o próprio pai; um histórico de loucura e doença mental com a mulher; um melhor amigo médico; sei lá, qualquer coisa que desse um pouco mais de substância. Vai entender. ³

De pensamentos aleatórios:

- A referência de Fringe nos letreiros da cidades não pára só na estética e na direção de arte. A capital do governo ser no Rio de Janeiro? That’s cool. Se a ideia for de uma realidade alternativa parecida com a nossa em que Chico Buarque permanece exilado em Paris e que o Brasil ganhou a Copa de 82, DAÍ eu aprovo. muito.

- Não sei quem informou à Maria Fernanda Cândido que ela consegue atuar. (Já o personagem principal eu - pelo menos - nunca tinha visto. Como sempre, colocar desconhecidos ajuda). (E bora combinar que Raul Cortez poderia ressuscitar e voltar para um papel de juiz do STF).

- Como bem lembrou a @gabialmeida_ não é protocolo o Presidente e o Vice viajarem juntos (ACHO que especialmente de helicóptero). E mais: há um aceno discreto ao Ulisses Guimarães ali? Ou eu que estou vendo coisas demais?

M.

¹ Essa frase (“The West Wing feelings”) traz um sentimento incrivelmente poderoso em mim, já que considero a melhor série de TV de todos os tempos, sem exagero algum. Com roteiros e produção executiva de Aaron Sorkin (ganhador do Oscar de melhor roteiro por “A Rede Social”) a série conta o dia-a-dia da equipe de comunicação da Casa Branca durante o governo de um presidente democrata, liberal, iconoclasta e genial. Foi uma das séries mais vencedoras de prêmios da história da TV americana e (acho que, fiquei com preguiça de verificar) ainda detém o recorde de maior número de indicações ao Emmy para uma temporada de estreia de série. Os roteiros são simplesmente geniais, tudo é perfeito, desde a atuação até o ritmo dos personagens. Não tenho como recomendar mais, e deixo um clipe que é uma pequena amostra da porra toda: http://www.youtube.com/watch?v=-RQHTeP8vS8

² http://en.wikipedia.org/wiki/Walk_and_talk *

³ Admito, no entanto, que parei de prestar muita atenção no final do episódio devido a (sem ser exatamente nessa ordem) (1) a tele-entrega do burger ter chegado naquele exato momento (2) o whatsapp ter sido despertado com incoming (3) um artigo bastante interessante na Vanity Fair despertou minha atenção (esse aqui, se você está se perguntando: http://www.vanityfair.com/culture/features/2011/12/michael-lewis-201112 ). Então, há uma chance mínima do episódio de ontem ter terminado de maneira mais emocionante e EU que perdi. Se isso aconteceu peço perdão imediato e prometo prestar mais atenção nas próximas vezes.

* Me parece que hoje (18/1/2012) pode haver certa dificuldade para se acessar links na Wikipedia (ref. http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:SOPA_initiative )

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