os homens velhos que fazem a minha cabeça - parte 2
O primeiro post da série já começou com polêmica: meu pai me perguntou porque eu escolhi só jovens (a resposta à piada dele é meio óbvia - eles têm que estar vivos - mas ainda assim ele questionou a ausência de Gabriel Garcia Márquez - que também não está na parte 2). É importante lembrar que é uma escolha estritamente pessoal, e eu também escolhi abordar uma maior diversidade de meios e estilos. Tem escritor, mas também tem quadrinista, cineasta e cara que faz ficção-científica.
A segunda questão foi “por que uma lista apenas com homens?”. Sinceramente, não consegui pensar em nenhuma mulher que se encaixasse em todos os critérios. Sério. Não é machismo. É realismo. Pensei em Agatha Christie, mas tá morta. Pensei em Sophia Coppola, mas tenho a severa impressão que ela é mais jovem que eu. Pensei em alguma comediante, mas nenhuma senhora idosa me faz rir tanto quanto os senhores idosos comediantes, e nem eles entraram nessa lista. Pensei em Barbra Streisand, mas daí ia significar muito. Na boa, acho que seu fizesse uma lista das velhas que fizeram ou fazem a minha cabeça só ia entrar a Ginger Lynn. E na boa, não dava né.
Aqui continuo com a lista, nos moldes originais. Vamos aos nomes:

William Gibson
Ele não é o pai da ficção-científica nem nada. Começou a escrever no final da década de 80 e o seu livro mais famoso - Neuromancer - é considerado o precursor do cyberpunk e da ficção-científica mais contemporânea, menos romantizada. Mais ou menos como Alan Moore, ele criou um sub-gênero dentro de algo que já era de nicho, e com isso muita merda veio junto. Toda a estética Matrix-Akira pode ser considerada culpa dele. (Não que Akira ou Matrix sejam ruins, claro, mas estou falando dos clones. Dos clones)
De qualquer modo, acho Neuromancer muito ruim. Não sei porque, exatamente. Talvez seja a tradução, nunca li no original. Mas eu tenho uma teoria: eu li tarde demais. Fui ler há alguns anos, apenas. E quando eu li, ele já era antigo. Tudo aquilo que era precursor, arrojado, diferente e futurista JÁ tinha ocorrido no mundo. Hackers, avatares, necessidades de conexão e tudo mais. Neuromancer é um livro que não pode ser lido num momento em que você JÁ experimentou a internet. Ele tem que ser o livro em que você lê e pensa “ISSO nunca vai ocorrer, onde já se viu” e daí 9 anos depois TUDO aquilo ocorre.
O que me leva aos meus livros favoritos de Gibson: Pattern Recognition e Spooky Country. (Sim, lidos no original, daí minha preocupação com a tradução de Neuromancer). São livros que li na época em que foram lançados, e daí sua importância. Simbolizam muito do que penso em relação ao papel das marcas, das empresas, as consequências de ultra-isolamento e hiper-conexão e como as ideias, os “memes” se propagam. E se passam nos “dias atuais”. Pattern Recognition tem um viés de marca, de branding, com uma heroína que tem o “dom” de saber quando uma marca vai dar certo ou não, o que a coloca como consultora de empresas de marketing e no meio de uma busca engendrada por um empresário amoral atrás de uma produtora de filmes que os publica de maneira anônima na internet. No livro, a tentativa de discernir sobre o que é arte é o que é comercial é muito forte.
Spooky Country é ainda mais interessante. Mais uma protagonista mulher, ex-integrante de banda, colocada pelo mesmo empresário de Pattern Recognition (A formação de uma mitologia, de um universo! Adoro tanto que chego a dar pulinhos) atrás de uma história jornalística sobre geo-localização. E tem espiões, agente renegados russoc-cubanos que usam códigos em russo e parkour como manobras de defesa e fuga e também uma conspiração enorme nos EUA pós-11 de setembro.
Ou seja: é atual, mas não tem nada a ver com o hoje em dia.

David Lynch
O weird man por excelência. O criador dos mundos fantásticos, habitados por homens-elefante, bruxas de Duna, rapazes que se metem em merda, saxofonistas que não sabem porque mataram a mulher e anões. Ah, os anões.
Diretor de filmes de tão pouco sucesso comercial, é de se imaginar porque ele continua. Que bom que continua. Considero Duna um filmaço, apesar de todos os pesares. Eu sei que os fãs do livro devem achar uma merda, mas acho que é a síndrome de Gibson, só que ao contrário: VI o filme antes de ler o livro. Logo: o filme é a história. E tem Veludo Azul. E tem Coração Selvagem. E tem A Estrada Perdida (Certamente o filme mais encagaçante que eu vi em toda a vida. Permaneço apavorado nos dias de hoje só de OUVIR a porra da trilha sonora). E tem A Straight Story, tão comum e lento e ordinário que só podia vir de D. Lynch: a melhor maneira de se auto-homenagear como um dos diretores de filmes mais estranhos de todos os tempos é fazer um filme comum a 12km por hora (literalmente). Porque isso é estranho né.
E Cidade dos Sonhos. Sério, que filmaço. E quase ninguém que eu conheço acha isso. (O que só aumenta o meu grau de fanatismo, claro).
E tem Inland Empire. Que eu comprei mas nunca vi. Porque li em algum lugar que te um filme dentro do filme, e pessoas vestidas com roupa de coelho, e foi feito em digital para baratear custos. E tem a Laura Dern. Acho que nunca verei, talvez seja demais para mim.

Gore Vidal
The gentleman. O mais próximo que os EUA têm de um “homem de letras”. Ele seria o Samuel Johnson americano, SE Johnson tivesse nascido no século XX, fosse bissexual e não estivesse nem aí para nenhuma convenção.
Mas tergiverso.
Gore Vidal é um ensaísta, dramaturgo, escritor de ficção, roteirista e ativista. Não li quase nada dos ensaios dele (o que é uma vergonha, eu sei) e menos ainda da porção de teatro (o que nesse caso é só uma triste realidade, porque teatro não é parte do cotidiano aqui desse lado), mas li alguns de seus livros. E que livros. Vidal escreve um tipo mais do que interessante de ficção-histórica, e não tem quase nada que me fisgue mais do que ficção-histórica (bom, talvez ficção-histórica-alternativa). Seus livros podem variar desde história sobre o início da criação (o excelente para caralho “Criação” se passa na Grécia pré-imperadores e é narrado por um persa sobrevivente das guerras persas) e ir até a era de ouro dos EUA, na época em que Roosevelt e cia resolviam o mundo no meio da segunda guerra mundial. É nesse tipo de ambiente que Vidal se destaca mais (na minha opinião) porque ele realmente viveu aquela época. Ele se envolveu com as atrizes, e com os diretores da época de ouro do cinema; e com os políticos e congressistas e com o centro das coisas. Ele viveu tudo aquilo.
E era isso.
Pessoas que não entraram na lista, e suas razões:
Harold Bloom - muito chato
John Lennon - muito morto
Aaron Sorkin, Neal Stephenson e Willian T. Vollmann - muito jovens